Aprofundamento dos personagens acontece pela história que o game conta

Jogos Multiplayer não costumam ter um lore, a história que constrói aquele universo, tão detalhada quando o grande enfoque são as melhorias de metagame, introdução de novos modos, criação de personagens e itens cosméticos. Entretanto, algumas desenvolvedoras entendem a importância que isso pode ter para criar um produto mais coeso e atrativo, assim lançando contos, vídeos ou soltando pequenas informações que enriquecem personas vistas normalmente apenas por suas habilidades.

Este tipo de recurso torna-se mais eficiente quando aquela franquia é totalmente nova e não há nenhum tipo de alicerce para dar tom às histórias que formam aqueles universos, pelo que eles lutam e quão grande é o mal que eles combatem. Overwatch é um grande exemplo disso por ter tantos personagens com etnias diferentes. League of Legends tenta se aprofundar nesse contexto nos últimos anos, algo que resultou numa parceria da Riot com a Marvel para criar a HQ Ashe: Mãe Guerreira. Ao mesmo tempo, as próprias comunidades do jogo não conseguem entender a importância do lore para aquela franquia, principalmente quando introduzem algo que eles possuem preconceito.

A Representatividade de Overwatch

O FPS da Blizzard tem desde o seu início uma grande escala de personagens diferentes tanto por suas etnias quanto pelos aspectos físicos. Um dos seus maiores feitos em transformar um herói em algo pouco representado em seu meio foi com a Symmetra, que teve seu grau de autismo confirmado pelo diretor do jogo Jeff Kaplan. Entretanto, até hoje a desenvolvedora é cobrada por alguns fãs pela inexistência de uma heroína negra no jogo. Apesar de nenhuma opção jogável que se enquadre nessa reclamação, Efi Oladele, criadora de Orisa e uma das mentes mais brilhantes desse universo, encaixa-se nessa representatividade.

Apesar disso, boa parte da comunidade costuma não aceitar bem quando algum personagem é revelado como LGBT, refletindo a toxicidade que existe entre os jogadores que jogam o FPS. Tracer foi a primeira personagem a ser revelada como gay e nesta semana o conto Bastet destacou a antiga relação que o Soldier: 76 teve com um homem chamado Vincent. A foto dos dois juntos ainda se tornou um spray que pode ser adquirido assistindo a streamers da Twitch.

Apesar de o foco da comunidade ter ficado no passado amoroso do Soldado, algo que deveria ser normalmente aceito e não causar alvoroço, este conto ainda aprofunda a relação amistosa deste personagem com a Ana. Ambos possuem muito sofrimento por causa da vilanização que a Overwatch recebeu por causa de todo o conflito envolvendo Blackwatch e Talon. Os dois adorariam voltar a ter uma vida comum, mas se sentem obrigados a continuar a lutar por um mundo melhor, assim se mantendo heróis em vez de cidadãos comuns que constroem família. Enquanto a sniper sente saudades de sua filha, Pharah, que não tem contato com a mãe desde que ela havia sido considerada como morta num atentado, ele ainda demonstra apego ao passado com seu ex-namorado, que hoje é casado. Existe uma grande construção de profundidade nos dois heróis em algo que é extra-jogo, mas que os tornam mais interessantes.

Jogos de luta precisam de Modo História?

Nos últimos anos, os maiores jogos de luta têm criado o Modo História para criar uma narrativa dentro daquele universo. Parte deles conseguem criar um enredo que seja atrativo e importante para aquela edição da franquia, como Injustice 2 e Mortal Kombat 9 ou X, ambos da Netherrealm. Em outras situações, as desenvolvedoras acabam criando roteiros genéricos e desinteressantes, algo que se enquadra com perfeição ao trabalho da Capcom ao juntar seus universos em Marvel vs Capcom Infinite.

Mesmo que o Modo História não seja algo fundamental a um game que alcança seu sucesso pela aceitação da jogabilidade, principalmente em grandes campeonatos, o recurso narrativo acrescenta novas abordagens àquela franquia. Exemplos claros disso é o retorno desconfigurado de Nash no Street Fighter V ou os problemas de espaço-tempo que a franquia Mortal Kombat iniciou no 9 e deve trazer novamente no 11, que será lançado em abril deste ano.

Criando uma narrativa com pouco

Enquanto alguns games possuem facilidade clara para criar uma história rica do seu universo, como Overwatch e Mortal Kombat, outros precisam trabalhar com alicerces que possuem de produtos da mesma empresa. Hearthstone é baseado no universo de World of Warcraft, assim possibilitando que o card game tire referências específicas daquele mundo para criar novas coleções e até mesmo o texto especial que cada carta possui. A famosa história envolvendo o grito “Leeroy Jenkins” se tornou uma lendária excelente no CCG.

A Supercell ainda não consegue dar este estofo narrativo aos personagens do recente Brawl Stars, mas tem ampliado o universo dos personagens de Clash Royale e Clash of Clans com vídeos divertidos que são lançados pelo YouTube. As animações são descontraídas e tentam estabelecer uma situação que se torna irreal quando os jogadores apenas estão focados em derrubar as torres adversárias o quanto antes.

Mesmo que não seja o grande foco dos jogadores mais competitivos, o lore de muitos jogos torna-se um elemento tão rico que atrai mais usuários para aquele produto, algo que permite a desenvolvedora criar skins, bonecos e outros objetos atrativos aos fãs. Porém, mais importante do que isso, estabelecer características de personalidade aos personagens e dar diversos elementos de representatividade ao público amplia possibilidades de alcance narrativo para uma história que pode crescer ainda mais, seja com novos eventos, heróis, mapas ou qualquer elemento que seja possível dentro do game.

Durante pesquisa e produção de textos, é encontrado com a alcunha de Lazyguga em partidas de Overwatch, Clash Royale e MTG Arena ou conquistando ginásios no Pokémon GO.