É possível democratizar os e-sports?

Discussão é importante para entender o impacto cultural dos jogos no Brasil

Os e-sports continuam sua crescente de popularização, mas ainda ainda é preciso de muito trabalho para democratizar esse aspecto cultural. Para jogar é necessário ter console, PC ou celular com especificações avançadas tecnologicamente, assim tornando o fator financeiro um empecilho enorme, com isso dificultando que muitas pessoas com talento consigam desempenhar suas qualidades dentro do competitivo. 

Ao mesmo tempo, quando jogos mais acessíveis fazem sucesso, o discurso negativo criado pela comunidade gamer mostra que ainda há muito para ser feito em função disso. Esse debate se torna mais latente com o atual sucesso do Free Fire, battle royale da Garena que se virou um enorme fenômeno no Brasil e conseguiu revelar atletas que dificilmente teriam condições financeiras para investir em um PC gamer, por exemplo. Por isso, é muito mais comum que as pessoas interessadas por e-sports ou vídeo games se tornem grandes telespectadores do cenário.

Os DLCs de Super Smash Bros. O pacote com os cinco personagens custa 25 dólares

Alto custo dos games

Jogos eletrônicos ainda estão muito longe de serem baratos, principalmente quando colocados em comparação com a realidade financeira do brasileiro. Com isso, é muito difícil adquirir os aparatos necessários para conseguir jogar, ainda mais quando é necessário ter também uma boa Internet para isso. Dependendo da modalidade, ela é ainda mais cara para se manter. FIFA, por exemplo, gera muitos gastos ao competidor que gosta do Ultimate Team. Jogos de luta possuem DLCs de personagens novos que sempre são pagos, assim acumulando gastos ao produto que já possui preço cheio.

Jogos free-to-play facilitam esse processo de entrada nos e-sports, mas eles ainda possuem micro-transações que podem dificultar a vida de quem deseja se manter competitivo. Até mesmo Clash Royale, que é gratuito e acessível, torna-se abusivo a longo prazo porque é muito difícil de conseguir ter tantas cartas no level máximo. 

Hearthstone rodando no smartphone Crédito: Vistek

A importância do mobile

Smartphones são um dos aparelhos mais comuns entre os brasileiros e isso facilita com que parte da população possa ter acesso a vários tipos de jogos diferentes. Segundo a 30° Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, há cerca de 230 milhões de celulares ativos no país. Computadores, notebooks e tablets são 180 milhões.   

Entretanto, ainda existe uma resistência enorme da comunidade gamer em respeitar jogos para mobile. Isso pode ser um reflexo enorme da já clássica briga para confirmar qual é o melhor aparelho de jogos eletrônicos, discussão que só se torna fervorosa por causa do fanatismo dos fãs de cada empresa, mas se torna ainda mais exclusiva com aqueles que usam o próprio celular como uma forma de poder se divertir com jogos eletrônicos.

Área da Afro Games, projetado do Afro Reggae, focado em jogos eletrônicos

Aspecto cultural

Democratizar os e-sports pode ser visto como algo impossível para alguns, principalmente porque todas as modalidades são dominadas por uma empresa que não permite código aberto daquele jogo. Essa é uma das principais características que o afasta dos esportes tradicionais. Por exemplo, para praticar o futebol, só é necessário uma bola, que pode até mesmo ser improvisada com papel ou meia. Jogos eletrônicos não possibilitam isso. 

Porém, alguns exemplos raros conseguem tornar os esportes eletrônicos mais populares. Um dos projetos mais conhecidos no Brasil com este enfoque é o Afro Games, criado pela AfroReggae, que já formou 77 alunos em cursos de League of Legends, programação de jogos e produção musical para games. Além disso, também existe o time AFG, de LoL, que possui parceria com a INTZ.  

Free Fire é outro grande diferencial que tenta democratizar ainda mais os e-sports. Por ser acessível, o battle royale se popularizou no Brasil e se tornou gigante, ainda mais pela força que a empresa investiu conscientemente para tornar o seu produto um fenômeno. Com isso, muitos jovens de baixa renda encontraram algo em que poderiam mostrar seu talento com os esportes eletrônicos, algo que a Pain Gaming ressaltou com a história dos irmãos V.

Mesmo que ainda esteja muito longe de democratizar os e-sports de forma efetiva, algumas iniciativas conseguem fazer com que os esportes eletrônicos se tornem mais presentes para pessoas de baixa renda. Para isso, é preciso de vários incentivos público e privado, seja para facilitar o entrada no competitivo dessa cultura ou até mesmo permitir que pessoas com dificuldade financeira consigam presenciar grandes torneios. Por exemplo, a entrada gratuita ao BIG Festival, algo que resulta imediatamente na presença de jovens no evento. Ao mesmo tempo, é importante que a comunidade gamer entenda a importância disso e não tenha preconceito por plataformas ou jogos, assim criando a receptividade para a inclusão de todos.

Durante pesquisa e produção de textos, é encontrado com a alcunha de Lazyguga em partidas de Overwatch, Clash Royale e MTG Arena ou conquistando ginásios no Pokémon GO.