Entrevista – Time de Counter-Strike da Black Dragons

Equipe participa do recente Campeonato Brasileiro de CS:GO

Em julho, a Black Dragons revelou sua nova line-up para Counter-Strike: Global Offensive composta apenas por atletas mulheres, sendo o único time feminino participante do Campeonato Brasileiro da modalidade. Segundo uma das sócias da organização em entrevista para a SporTV, Nicolle Cherrygumms, “a ideia partiu do sócio-fundador Denis “Pings” Vidigal, e que seria um orgulho ter essas meninas num torneio desse porte.” Por isso, fomos até a Gaming House da equipe para conversar com Amanda “AMD” Oliveira, Amanda “dinha” Costa, Ana Gabriela “AnaBala” Bochi, Olga “Olga” Locatelli e o coach Ricardo “rik” Furquim. 

Todas as atletas da equipe já possuíam experiência profissional com o Counter-Strike previamente antes de entrar na Black Dragons, principalmente a capitã da equipe AMD. Entretanto, como o cenário feminino não possui tantas oportunidades quanto o masculino, torna-se mais difícil a participação em uma organização que invista nas jogadoras a longo prazo e com a devida estrutura. “Antes de entrar na BD, eu estava trabalhando em uma padaria, mas já havia um acordo familiar que eu largaria isso se aparecesse uma oportunidade dentro do CS. Quando apareceu, eu saí de São José do Rio Preto e vim pra cá”, afirma AnaBala.

Apesar das experiências profissionais anteriores, as atletas ressaltam as diferenças que existem ao participar de uma organização grande do cenário brasileiro de e-sports. “A BD tem muita torcida, independente de modalidade ou atleta, então tem gente que não conhece nada de CS que já deu apoio pra gente falando que acompanham os jogos”, salienta AMD. Olga também aponta o quão importante é ter um salário fixo para poder jogar, algo que ela não tinha nas experiências anteriores.

Olga, AnaBala, AMD, Nara e dinha

Além dos incentivos motivacionais da torcida e financeiros gerados pela organização, as meninas ainda convivem numa Gaming House – já que existe uma obrigatoriedade de todos os atletas morarem em São Paulo para participar do Campeonato Brasileiro de Counter-Strike. Toda essa estrutura é novidade para elas por causa da comissão técnica grande, que auxilia com apoio psicológico, algo que traz benefícios até mesmo em coisas simples, como a forma correta de respirar em momentos de pressão. A BD também tem auxiliado a dinha com tratamento fisioterapêutico para uma lesão no ombro, que precisa ser tratado para aliviar as dores nessa região do corpo durante os treinos.

Entretanto, não são apenas as meninas da equipe que têm sentido essa diferença organizacional na Black Dragons, rik também tem vivido uma experiência bastante nova em sua carreira. “Como player eu passei por várias organizações, mas essa é a primeira como coach. Como parte da comissão técnica, eu vejo carinho da BD pelo time. Os donos costumam vir aqui na Gaming House e conversar com a gente, criar uma relação amigável, gravar vídeos e tudo mais que vira um diferencial incrível”, ressalta o coach.

Os horários de treino das atletas são organizados por AMD e rik. Elas costumam fazer o primeiro treino do dia com individual e tático no período da tarde, com pausas para descanso e alimentação. Voltam às 18h, fazem pausa para jantar às 20h e voltam às 21h e ficam treinando às vezes até à meia-noite. Entretanto, o time entende que forçar um ritmo muito grande de prática pode se tornar prejudicial, por isso elas aproveitam bem todos os intervalos e folgas, assim evitando algum tipo de lesão, como a do ombro da dinha, ou desgaste psicológico. A atleta Olga ainda tem conseguido tempo de cursar Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela manhã, fazendo com que ela concilie horários de time e faculdade. 

Black Dragons participando da abertura da CBCS na Game XP                                                                      Créditos: CBCS

A iniciativa da Black Dragons de ter um time completamente feminino dentro do Campeonato Brasileiro de Counter-Strike foge bastante do que é visto no cenário profissional da modalidade. Mesmo com a notória e necessária ascensão que as mulheres estão conseguindo merecidamente dentro dos e-sports, isso ainda não minimiza o quão tóxico e machista é este ambiente, algo que faz a equipe da BD evitara leitura de muitos comentários ofensivos.

“A gente tem combinado de não ler o chat porque sabe que isso pode fazer muito mal. Até no cenário feminino tem muita coisa chata, mas quando a gente foi para o CBCS o peso foi maior pelos julgamentos antes mesmo da oportunidade. Então, pesa muito ouvir que ali não é o lugar pra você, mesmo sabendo que você tem muito pra mostrar. Culturalmente os meninos podem jogar desde cedo, por exemplo, quando chegam da escola e vão para o videogame, enquanto as meninas ganham tarefas do lar. Então é algo que precisa ser desconstruído culturalmente”, explica AMD.

Ao mesmo tempo que as atletas da Black Dragons recebem mensagens negativas pela oportunidade de jogar a CBCS, elas sabem que também servem de exemplo para que outras garotas se interessem ainda mais por Counter-Strike e e-sports, algo que a AMD comenta sobre conversas que já teve com jogadoras de League of Legends que também sofrem com o mesmo tipo de toxicidade e que enxergam nelas motivação para manter foco na busca por algo grande no jogo. 

“Eu acho que o maior exemplo que elas podem passar para alguém é quando a gente está sendo derrotado num jogo e elas continuam sorrindo porque estão felizes dando o melhor delas. Então, eu fico muito feliz em abrir a stream e saber que elas não estão abatidas, mas sim num momento tenso e nervoso. Entretanto, o sorriso continua porque elas estão fazendo o que elas amam. Eu quero mesmo que elas sejam um exemplo para as meninas que estão criando interesse agora para o CS, nesse sorriso de esforço de que elas estão felizes tentando o melhor delas”, acrescenta rik.

Essa força que as meninas da Black Dragons demonstram conforme às partidas também é um reflexo de todo aprendizado e benefícios que o Counter-Strike gerou para elas no decorrer da vida. AMD ressalta que o CS foi um diferencial para sair de um relacionamento abusivo e encontrar foco em algo que sempre fez bem para ela, tendo apoio na época da Nara, hoje sua companheira de equipe. dinha também encontrou no FPS uma válvula de escape para problemas pessoais, como ela mesmo já contou em entrevista emocionante da CBCS sobre uma perda familiar.

“Eu tive problemas financeiros na família, por isso me mudei bastante de cidade, então perdi muita amizade, algo que gerou depressão e ansiedade. Quando eu vi o cenário competitivo do CS:GO, eu comecei a achar legal, mesmo que preferisse o 1.6. O game também serviu para eu aprender a me comunicar muito melhor com as pessoas, até mesmo quando chegava alguém me xingando durante os jogos. Então aprendi a lidar com as pessoas, receber críticas ruins e ignorar, além de me ensinar a conversar melhor com elas”, conta AnaBala. 

Olga também relata que aprendeu a conversar com as pessoas porque o CS é um jogo de comunicação, então você precisa falar do jeito e momento certo, portanto quando ela percebia os benefícios que levava do jogo para fora dele, em relação a se comunicar, conseguia melhorar alguns relacionamentos. As meninas e o rik também relatam como Counter-Strike e outros games foram fundamentais na criação de grandes relacionamentos, amistosos ou amorosos, que existem até hoje.

Apesar de ainda não ter vencido no Campeonato Brasileiro de Counter-Strike, as meninas da Black Dragons continuam treinando pesado para evoluir a cada partida contra as equipes que participam da competição. Lutando contra o preconceito da comunidade e visando aperfeiçoamento profissional, o time mantém o foco em suas qualidades e no impacto positivo que elas trazem para todo o cenário feminino da modalidade. 

* A atleta Tainara “Nara” de Silos não participou da entrevista porque não estava presente na Gaming House nesta data por causa de problemas pessoais.

Durante pesquisa e produção de textos, é encontrado com a alcunha de Lazyguga em partidas de Overwatch, Clash Royale e MTG Arena ou conquistando ginásios no Pokémon GO.