Entrevista: Nayara Sylvestre

A ascensão da mulher mais influente do Hearthstone brasileiro

Nayara Sylvestre é um dos nomes mais conhecidos aos membros da comunidade brasileira de Hearthstone. A ruiva de Jundiaí hoje acumula várias formas diferentes de contribuição ao cenário do CCG da Blizzard em terras tupiniquins. Brigando como jogadora pelo legend mensal da ladder, transmitindo suas jogadas pela Twitch, comentando os principais torneios ou ajudando eventos menores através da organização.

Entretanto, quem vê o sucesso da Nayara hoje no Hearthstone não deve imaginar que o seu início no CCG tenha sido para não ficar boiando em assuntos dos amigos. “No início, em 2015, eu comecei apenas porque meu círculo de amizades só falava sobre isso e dois deles estavam iniciando no competitivo, então eu tinha que aprender como jogar ou aceitar ficar fora da grande maioria dos papos”, conta a streamer. Praticamente um ano depois, ela começou a aproveitar o tempo livre de home office, após ter abandonado o seu escritório de advocacia, para fazer as transmissões das partidas, quando começou a ser reconhecida pela comunidade do card game.

Nayara e ComaRox durante transmissão da ESL Premier League

Nayara conseguiu aproveitar as oportunidades que apareceram conforme sua visibilidade tornava-se maior. Com a ajuda de nomes reconhecidos dos Esports, como Thauê Neves e ComaRox, seu parceiro de transmissão dos eventos mais importantes de Hearthstone, ela fixou sua presença nos comentários da Copa América do CCG, assim lhe dando notoriedade para receber convites profissionais. Ao mesmo tempo, ela ressalta o tempo necessário que se dedica ao game para entender o máximo sobre ele.

“Minhas habilidades melhoram conforme desempenho cada função. Como jogadora, tento absorver o máximo de informação em nível competitivo. Durante minha stream entendo melhor a visão da comunidade enquanto interajo com eles. Na função de caster, torno o que entendo sobre o jogo em palavras simples e didáticas para que o público casual também compreenda as jogadas. É uma dedicação diária para entregar o meu melhor”, ressalta Nayara.

Destacando-se no cenário sul-americano de Hearthstone com múltiplas funções, o convite para participar de eventos fora do continente seria questão de tempo, algo que ganhou forma no inclusivo World Showdown of Esports 2: The Hearthstone Showdown, em dezembro de 2018 na Califórnia. A competição era formada por 16 jogadoras de notoriedade ao redor do mundo, assim colocando estes talentos femininos no holofote e deixando grandes nomes masculinos do CCG como casters.

“Mesmo que eu me dedique tanto para tentar dar mais visibilidade ao cenário sul-americano de Hearthstone, foi uma grande surpresa o convite. Tem muita gente talentosa por aqui, então não esperava ser chamada para algo neste nível, o que me deu mais confiança de que estou no caminho certo. Com isso, pude sentir a apreensão que os profissionais passam quando estão atrás do monitor tomando decisões difíceis a cada jogada, além de ter feito contato com mulheres incríveis que vivem a mesma realidade que eu”, salienta Nayara.

O WSOE 2 ainda apresentou uma dificuldade totalmente inesperada às competidoras: a Blizzard havia nerfado inesperadamente várias cartas importantes do metagame do Standard na semana do evento, assim fazendo com que todas as decklists criadas pelas profissionais fossem reformuladas, dando um nível extra de complexidade maior para elas enfrentarem. “Dos nove arquétipos que tinha me preparado, seis foram reformulados em cima da hora, então só tinha a teoria para me ajudar. Acabei perdendo minhas duas séries de confrontos por 2-3, para Pathra e Nichelona.”

Torneios femininos em diversas modalidades de Esports ainda são bastante raros, mesmo que as mulheres demonstrem o mesmo talento que os homens. Parte disso, é culpa da cultura que existe na própria sociedade e se mantém dentro da comunidade gamer, assim dificultando a vida profissional delas também nesse segmento. Com isso, eventos como o WSOE 2 ocupam um espaço importante de representatividade que o cenário competitivo raramente estimula.

“Estes campeonatos são incríveis incentivadores para que algumas mulheres ganhem mais interesse pelo cenário competitivo. Por exemplo, hoje participo do Badass Women of Hearthstone, um torneio com rodadas semanais realizado em homenagem a jogadora falecida “Toastthebadger”. Este evento tem me feito conhecer mais garotas maravilhosas que são competidoras, casters e streamers, assim me inspirando ainda mais no meu trabalho”, ressalta Nayara.

Mesmo que hoje ela esteja numa posição que o respeito pelo seu trabalho seja maior, Nayara não conseguiu escapar da toxicidade masculina. “Quando eu era apenas jogadora, estava num evento com um amigo que havia instalado o CCG recentemente e o estava ajudando. De repente, um cara questionou se ele estava me ensinando a jogar. Quando descobriu que era o contrário, ressaltou que era o fim do mundo uma mulher fazer isso. Hoje, me arrependo de não ter discutido sobre isso, mas espero que ele tenha se acostumado com minha presença nos eventos de Hearthstone”, afirma a caster.

Card games digitais estão se tornando cada vez mais populares e ocupando parte da indústria de games que visa cenários competitivos. Hearthstone se mantém como o principal até hoje, mas agora presencia o crescimento do MTG Arena e o gigante tropeço do Artifact. Apesar disso, Nayara se mantém focada no CCG da Blizzard e só dedica um pouco de tempo para outro game da mesma desenvolvedora. “Entendo que o mercado dos CCGs é moldado pela concorrência e isso é totalmente saudável para os jogos não estagnarem, mas por mais que eu tenha interesse, não tenho tanto tempo livre de dedicação para aprender um game novo com a profundidade que possuo no Hearthstone sem pensar num retorno financeiro. Por isso, se fosse agregar uma vertente diferente ao meu lado profissional seria o World of Warcraft, que já costumo me aventurar”, acrescenta Nayara.

Recentemente, a comunidade de Hearthstone ficou assustada com rumores de que o próprio game poderia seguir o mesmo caminho que o Heroes of the Storm por causa de vários cortes realizados pela Activision Blizzard, mas a streamer se mostra bastante segura em relação a isso. “Não acredito que o rumo do CCG seja o mesmo do MOBA por causa da diferença financeira que exista entre eles, mesmo com a concorrência dos outros card games. Se infelizmente acontecesse, o trabalho que construí até aqui me ajudaria a continuar traçando minha história nos Esports.”

Nayara ressalta que trabalhar com Esports é divertido, mas tem seus momentos bastante desanimadores, mas que cada momento pequeno de conquista faz tudo valer a pena e que este é o futuro. “Então, se você realmente deseja viver dos joguinhos, não considere isso como uma brincadeira e acredite nesse sonho porque é possível”, conclui a jogadora.

Durante pesquisa e produção de textos, é encontrado com a alcunha de Lazyguga em partidas de Overwatch, Clash Royale e MTG Arena ou conquistando ginásios no Pokémon GO.