Entrevista – Willy Edel, CEO da Bazar Gaming

De jogador profissional de MTG a investidor em card games

Willy Edel é atualmente o CEO da equipe Bazar Gaming e também da loja Bazar de Bagdá, entretanto foi como jogador profissional de Magic the Gathering que ele tornou o seu nome reconhecido. A história dele com o card game começou quando o jogo ainda era bastante pequeno no Brasil, tanto que o interesse dele era por outro tipo de hobby que compartilha algumas semelhanças com o produto da Wizards of the Coast. 

“Em 97, eu ainda estava no ensino médio. Na época estava começando a febre de RPG no Brasil. A gente tinha pouca tradução de GURPS e Dungeons & Dragons, mas eu já gostava dessa temática medieval. Porém, eu era péssimo naquilo porque era muito competitivo. RPG é mais sobre a história e trocar uma ideia com amigos, enquanto eu desejava tirar o máximo de vantagem nas jogadas ou antecipar o que o mestre tinha pensado. Se eu era o mestre, ainda queria ganhar. Então, era divertido, mas não pra mim”, conta Edel. 

Mesmo que o RPG não fosse exatamente o que Willy Edel procurasse para ele como hobby na época, foi através de convenções desse tipo de público que ele conheceu o Spellfire, card game inspirado no universo de D&D. Apesar dele ter jogado muito pouco dele, foi a porta de entrada para o gênero e assim o caminho até o Magic the Gathering, que o conquistou rapidamente.

“Ele tinha os aspectos do RPG que eu gostava em temática, mas também tinha aquilo que faltava antes pra completar minha diversão, que era a parte competitiva. Em uma semana já estava indo participar de torneio, mesmo não sabendo muito do jogo, logo eu perdi todas. Porém, eu sabia que era isso que eu queria pra mim. A partir daí, comecei a consumir conteúdo através de fórum, ICQ e mIRC, algo totalmente distante do consumo de conteúdo que existe hoje”, descreve Willy Edel.

Conforme o tempo, Willy Edel começou a se destacar nos torneios do Rio de Janeiro, alcançar bons resultados nas competições nacionais, se tornar o melhor ranqueado do país e conquistar a vaga para o Pro Tour no inícios dos anos 2000, torneio internacional com competidores classificados ao redor do mundo. A primeira participação não rendeu classificação para o segundo dia, já que a equipe dele precisava de mais uma vitória para avançar. 

Logo em seguida, um novo desafio entrou na vida do recém-competidor do circuito profissional: a faculdade de estatísticas da ENCE. “Eu deixei o competitivo um pouco de lado, mas sempre acompanhava o que estava acontecendo. Quando terminei o curso, já comecei a trabalhar no mercado financeiro, quando eu consegui mais uma vaga para o Pro Tour. Novamente em trio, dessa vez com o Celso Zampere e o Paulo Vitor. Conseguimos chegar até a final, o que deu uma grana inimaginável para quem ainda era muito moleque na época”, ressalta Edel.

Circuito Profissional

Depois do vice-campeonato em Charleston, o próximo resultado expressivo de Edel foi no Pro Tour seguinte, em Kobe, ficando novamente no segundo lugar. Com o acúmulo de bons resultados, a premiação em dinheiro ajudou na aquisição do apartamento próprio, algo que chamou atenção dos pais, mas que não desejavam que ele largasse o emprego tradicional. A Wizards ofereceu contrato para ele, garantindo passagem e hospedagem nos eventos internacionais, mas pra isso ele tinha que dar um jeito de conseguir conciliar jogo e trabalho no mercado financeiro.

“Minha chefe na época permitiu desde que eu usasse meus dias de férias. Entretanto, mudou a chefia e quem entrou só permitia que tirasse os 30 dias corridos. Como eu tinha acabado de assinar o contrato com a Wizards of the Coast e tinha a empolgação de viajar conhecendo o mundo, pedi demissão e fiquei exclusivamente no circuito profissional de 2007 a 2009”, conta Edel.

Com o contrato finalizado, o jogador preferiu investir financeiramente na sua própria loja de card games no Brasil. Pegou um empréstimo no banco, usou sua coleção pessoal e iniciou seu comércio apenas virtualmente, mas conforme o tempo se tornou um empreendimento físico no Rio de Janeiro e que viria posteriormente para São Paulo. Ao criar novas filiais, ele conseguiu voltar a jogar profissionalmente quando começou a ter sócios, o que permitia a ida dele aos torneios. Em 2015, atingiu a quantia de pontos necessários para o Hall da Fama do MTG, um grupo seleto de jogadores, que anteriormente só havia o Paulo Vitor Damo da Rosa de brasileiro.

“Esta foi uma das grandes recompensas da minha vida e era algo que eu nunca esperava. Alcançar o Hall da Fama é muito difícil e o Brasil já tinha o Paulo Vitor desde 2012, mas isso porque ele é realmente um fenômeno. Pode pegar para comparar qualquer atleta brasileiro grande nos e-sports que ele não tem o mesmo sucesso que o PV em sua modalidade. Ele é simplesmente o cara que mais ganhou dinheiro na história do MTG, um número absurdo de Top 8 em Pro Tour. Praticamente o Faker do MTG”, ressalta Edel sobre o sucesso do amigo.

Willy Edel, Paulo Vitor e Celso Zampere no Pro Tour

Organização de torneios

Depois de alcançar o Hall da Fama, Willy Edel desacelerou seu ritmo no jogo por causa do nascimento do filho. Com isso, ele voltou a ficar mais próximo das lojas, assim organizando os torneios delas. Posteriormente, sua experiência com os eventos de Magic the Gathering se tornaria um diferencial para fazer quatro Grand Prix no Brasil. Quando o contrato para a realização desses eventos se tornou da Channel Fireball, ele ficou responsável em auxiliar com logística de coisas simples que os americanos teriam dificuldade fora do país. 

“Eu sempre tive o costume de criar eventos nas minhas lojas para fazer com que o público estivesse nela. Seja um torneio de graça ou uma premiação que chame atenção para o público consumir no local durante o dia. Com isso, eu peguei o gosto da coisa de ajudar o pessoal daqui para participar dos torneios internacionais. Minha última idealização é a Latam Magic Series, um circuito com quase 150 lojas participantes na América Latina inteira que fazem classificatórios para dois torneios que dão vaga direta para o Mythic Championship, assim garantindo oito vagas no total aos participantes”, explica Edel. 

Atualmente o Magic the Gathering passa por um período em que público e lojistas precisam se adaptar com o sucesso da plataforma digital, o MTG Arena, para fazer com que o público no tabletop, a versão física do card game, se mantenha presente e até aproveite para crescer. No começo, a chegada desse novo modelo online gerou muito medo em quem possuía estabelecimento por causa da possível diminuição de jogadores, mas Edel enxerga o efeito contrário nos locais que souberam se adaptar.

E-sports com a Bazar Gaming

Para acompanhar essa evolução ao virtual, Edel decidiu criar a Bazar Gaming, uma equipe focada em jogos de estratégia que ainda não tinham apoio efetivo no Brasil. A ideia dele era poder dar incentivo para bons jogadores em modalidades que não necessitam de destreza manual para a realização da jogadas. Magic the Gathering, Hearthstone e Pokémon Trading Card Game foram os jogos contemplados.

“Com a chegada do Arena, todos os profissionais começaram a procurar apoio, mas ninguém dos jogadores grandes está dentro de uma organização renomada. Isso não é porque o produto é fraco, mas porque não o conhecem bem. Por isso, decidi criar meu próprio time, assim ia atrair olhos para ele e o MTG cresceria. Eu peguei toda a verba que tinha de Marketing e parei de investir como fazia, como posts patrocinados em redes sociais. Eu não sabia se ia dar retorno, então foi difícil de ser aceito pelos meus sócios, mas a gente precisava de algo popular, por isso também trouxe o Hearthstone para o projeto porque todo mundo o conhece”, salienta Willy Edel.

A Bazar Gaming possui grandes jogadores em todas as modalidades que participa. Nayara Sylvestre e Fled, por exemplo, se classificaram para três torneios internacionais de Hearthstone durante o ano. Perna venceu uma competição nacional com os melhores do card game da Blizzard. No MTG, cinco jogadores, incluindo o Edel, estão entre os participantes do Mythic Championship Richmond – incluindo entre eles Rastaf, Patrick Fernandes, Thiago Saporito e o grande campeão Carlos Romão. 

“O próprio Patrick, que a gente pegou inicialmente pelo potencial, já conseguiu resultados ótimos. Mesma coisa com Fled e Nayara que ganharam confiança e continuaram bem. Eles terem suporte faz toda diferença para trabalharem melhor. A gente evita cobrar porcentagem de premiação do atleta. Por exemplo, se ele ganha 10 mil dólares num evento, a gente só quer a quantia gasta para a passagem. Não queremos enriquecer com isso, mas crescer a comunidade porque assim eu tenho retorno da mesma forma. A Gillette não vai ganhar dinheiro patrocinando diretamente o League of Legends, eles ganham de outras maneiras”, exemplifica Willy Edel.

Três atletas da Bazar Gaming entre os indicados do Prêmio eSports Brasil

O impacto de crescimento do Magic the Gathering por causa do Arena é notório pela Twitch e através de grandes eventos. A gerente de comunidade da Wizards of the Coast no Brasil ressaltou o sucesso do card game em 2019, numa entrevista para a ESPN Brasil, como o melhor ano da história. Essa evolução do jogo fez com que a Bazar Gaming surgisse e outras equipes também, como a Bolts, da Ligamagic, principal site de MTG no país. Recentemente, eles divulgaram a realização de um Bootcamp preparatório para o Magic Fest São Paulo de Novembro, mostrando à comunidade brasileira um aspecto presente nos esportes eletrônicos que começa a ser incorporado à versão tradicional.

“Sobre os times, sempre existiram vários pequenos que não tinham estrutura, então eu nem digo que o nosso projeto foi inovador porque a gente pegou ideia de vários lugares até a gente estruturar tudo. Começou com o nosso, a Ligamagic também fez o time dela, o que é ótimo, e eu gosto de ter essa concorrência porque cria uma competição saudável para que eu tente crescer também. Eu quero que apareça várias equipes porque a gente pode ter uma liga local, algo que a gente pensa para o futuro, mas não apenas no Magic. Fazer algo legal para movimentar o mercado, algo parecido com o que o Rakin fez com o Teamfight Tactics recentemente”, finaliza Willy Edel.

Durante pesquisa e produção de textos, é encontrado com a alcunha de Lazyguga em partidas de Overwatch, Clash Royale e MTG Arena ou conquistando ginásios no Pokémon GO.